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Livro sim, revista não.

Livro sim, revista não.

Hlivro-sim-revista-naoá alguns dias, me perguntaram se sinto saudades de alguém. Prontamente respondi que não, mas a pergunta ficou à deriva, procurando uma resposta sincera. Sinto saudade daquelas pessoas que por alguns dias, horas ou até minutos, decidiram não fazer questão de si mesmas e me ouviram.

Em tempos de astigmatismo social, onde apenas folheamos pessoas como revistas superficiais sem conteúdo, poucas vezes nos surpreendemos com aquelas interessadas em nos ler completamente, como livros repletos de tramas e complexidades. A expressão “Ninguém lê nada!” muito usada na área de propaganda, vale também para os relacionamentos atuais onde parece existir uma deficiência em se enquadrar e focar a vida de um amigo ou parente.

Me surpreendo ainda mais vendo que também funciono assim, também evito o envolvimento, evito o investimento na vida alheia. Passo dias, semanas e meses, ensimesmado em meus sonhos, planos, contas e afazeres. Por vezes, no final do dia, me lembro que tal pessoa tentou se aproximar, me contou um problema, me confidenciou algo, mas já é tarde e eu não li, não me aprofundei, apenas vi a capa, dei uma passada de olho no texto da contracapa e voltei meu amigo na prateleira.

Além de egoístas, temos receio de ser inconvenientes, como talvez Jesus tenha sido ao dizer pro baixinho Zaqueu: “desce desta árvore, que eu vou jantar na sua casa hoje…” ou intrometidos, como talvez Ele tenha sido ao dizer a mulher samaritana “disseste bem: Não tenho marido e este que estás não é seu…”. Falta-nos hoje esta capacidade de ver o coração do nosso amigo, irmão, cunhado, tio, filho, mãe, pai, marido, esposa, namorado em toda sua individual profundidade.

Cada pessoa é uma obra literária consistente, não uma revista semanal sobre as celebridades da nossa novela favorita.

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